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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Forma como percebemos o tempo depende da memória.

Aquela velha pergunta alarmante da manhã seguinte à virada do ano ("Ai, o que foi que eu fiz ontem à noite?") – pode até parecer agradável em comparação àquela que pode vir em seguida, "Ai, o que exatamente eu fiz com o ano passado?" Ou: "Espere um minuto – por acaso uma década acabou de passar?"

Sim. Em algum ponto entre a trigonometria e a colonoscopia, alguém deve ter pressionado o botão de avançar. O tempo pode marchar, caminhar, voar ou engatinhar, mas no início de janeiro sempre parece que ele relampejou como um convidado bravo para o jantar, deixando conversas inacabadas, relacionamentos ainda travados, maus hábitos ainda vivos, metas inalcançadas.

Os cientistas não têm certeza de como o cérebro acompanha o tempo. Uma teoria afirma que ele tem um grupo de células especializadas em contar intervalos de tempo; outra diz que uma ampla gama de processos neurais age como um relógio interno.

De qualquer forma, segundo estudos, este marcapasso biológico não possui um grande alcance de intervalos longos. O tempo não parece desacelerar com um gotejar numa tarde vazia e acelerar quando o cérebro está envolvido em pensamentos desafiadores. Estimulantes, incluindo a cafeína, tendem a fazer pessoas sentirem que o tempo está passando mais rápido; trabalhos complexos, como calcular seus impostos, podem parecer se arrastar por mais tempo do que realmente tomam.

E acontecimentos emocionais – uma separação, uma promoção, uma viagem para fora do país – tendem a ser percebidos como mais recentes do que na realidade, em meses ou até anos.

Para resumir, segundo alguns psicólogos, as descobertas sustentam a observação do filósofo Martin Heidegger, de que o tempo "persiste meramente como uma consequência dos eventos ocorrendo dentro dele".

Agora, pesquisadores acreditam que o contrário também pode ser verdade: se muito poucos eventos vêm à mente, a percepção do tempo não persiste; o cérebro encurta o intervalo que passou.

Num estudo publicado na edição de dezembro do jornal Psychological Science, Zauberman liderou uma equipe de pesquisadores que testou a memória de alunos universitários para diversos novos eventos, incluindo a indicação de Ben S. Bernanke para presidente do Federal Reserve (33 meses antes do estudo) e a decisão de Britney Spears de raspar os cabelos (20 meses). Em média, os alunos subestimaram quanto tempo havia passado em três meses, segundo o estudo.

Não foi uma completa surpresa. Num experimento clássico, um explorador francês chamado Michel Siffre viveu numa caverna por dois meses, se afastou do ritmo de noite e dia e fabricou relógios artesanais. Ele ressurgiu convencido de que havia se isolado por apenas 25 dias. Deixado por conta de seus próprios meios, o cérebro tende a condensar o tempo.

No entanto, a forma pela qual ele fixa o tempo relativo de eventos depende da memória, diz o novo estudo. No ponto em que os estudantes no estudo recordaram desenvolvimentos relacionados ao evento original – a complicada vida amorosa de Britney, digamos, ou as intervenções de Bernanke na economia –, esse evento parecia muito distante. Numa série de experimentos, os pesquisadores testaram memórias pessoais e memórias de vídeos vistos no laboratório. O padrão se manteve: quanto mais vinham à mente desenvolvimentos intervenientes relacionados, mais distante parecia o evento original...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Incidência de câncer ginecológico em áreas urbanas é seis vezes maior do que em áreas rurais.

Pesquisa publicada no International Journal of Obstetrics and Gynaecology (BJOG) mostra alta incidência de câncer ginecológico (câncer de endométrio, de ovário e de colo de útero) em áreas urbanas no Egito, comparado à incidência em áreas rurais. O estudo sugere que as mulheres que vivem em zonas urbanas estão mais expostas aos xenoestrogênios ambientais (compostos industriais que têm atividade semelhante ao estrogênio), os quais podem aumentar o risco de desenvolvimento de tumores malignos relacionados a estímulos hormonais.

Foram analisados os dados de mulheres diagnosticadas com câncer ginecológico no Gharbiah Cancer Registry durante quatro anos. Os resultados mostram que a incidência1 dos 3 tipos de tumores estudados (câncer de endométrio, colo de útero ou ovário) é mais alta em áreas urbanas. O aumento observado é de cerca de 6 vezes em relação à incidência encontrada em mulheres de áreas rurais.

Tumores malignos em órgãos femininos como câncer de mama ou de útero estão associados à exposição prolongada ao estrogênio. A presença e a exposição aos xenoestrogênios ambientais é alta em áreas urbanas.

Estudos prévios mostram que a incidência1 de câncer de mama é 3 a 4 vezes mais alta em áreas urbanas. No presente estudo, os pesquisadores investigaram a incidência de outros tumores ginecológicos (endométrio, colo de útero e ovário) em áreas urbanas e rurais para avaliar se existe esta mesma tendência.

Tumores como leucemia (determinados geneticamente) têm as menores diferenças de incidência entre áreas urbanas e rurais, seguidos de tumores não dependentes de estímulo hormonal. Quando acrescentam-se cânceres dependentes de estímulos hormonais, aumentam as diferenças nas incidências para cerca de 70% (estas diferenças entre zonas urbanas e rurais aumentam em 146% quando apenas cânceres dependentes de hormônios são considerados).

O coordenador do estudo, Dr. Amr Soliman, disse que na população estudada não há diferenças entre mulheres de zonas urbanas ou rurais em relação a outros fatores de risco para câncer uterino ou de mama, acesso aos serviços de saúde ou comportamento. Também o uso de pílulas hormonais ou terapia hormonal é pequeno em mulheres do Egito. A alta exposição a agentes químicos industriais no ambiente que atuam como hormônios é um possível fator de risco nestes casos.

Fonte consultada:
BJOG – An International Journal of Obstetrics and Gynaecology de 16 de dezembro de 2009

sábado, 13 de setembro de 2008

Campanha contra a rubéola bate recorde com 53,4 milhões de pessoas vacinadas!




Mais de 53,4 milhões de pessoas já foram imunizadas durante a campanha nacional de vacinação contra a rubéola, o que representa 76,25% da meta de 70 milhões de pessoas, de acordo com balanço parcial divulgado nesta sexta-feira pelo Ministério da Saúde.

Os números superam os 52 milhões de pessoas imunizadas na campanha contra o sarampo em 1992, que até era a maior já feita no país.

E você? Já tomou sua vacina? Esta imunização é muito importante por prevenir a Rubéola Congênita, provocando malformação congênita. A doença pode levar à cegueira, surdez, retardo mental ou problemas cardíacos dos bebês.

Os homens também precisam da vacina, para evitar que ele seja o portador do vírus e venha a contaminar as mulheres, que podem levar à forma congênita da doença.

TODOS DEVEM PARTICIPAR!

Ainda é preciso vacinar cerca de 16,6 milhões de brasileiros, a maioria homens. A campanha, iniciada no dia 9 de agosto em todo o país, estava prevista para terminar hoje, mas o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, recomendou a 11 estados sua prorrogação. A imunização deverá se estender por mais sete dias em todos os estados da região Norte ― Amapá, Amazonas, Acre, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins ― além de Goiás, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo, onde as taxas ficaram entre 64% e 77%.

Segundo o Ministério da Saúde, no ano passado foram registrados 8.684 casos de rubéola no país, sendo cerca de seis mil apenas em homens, o que faz deles o alvo principal da campanha. Ao se vacinar, homens e mulheres ficam protegidos, eliminando a circulação do vírus do meio ambiente.

A meta do governo federal é eliminar a doença completamente até 2010, explica a médica Lily Yin Weckx, do Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Por isso, é importante que, quem já se vacinou, tome a dose novamente. "Uma dose protege 95% contra a doença. Com duas, a pessoa tem uma proteção total", diz.

domingo, 31 de agosto de 2008

Compostos extraídos de algas podem gerar o primeiro medicamento brasileiro contra Aids.

Três novas substâncias promissoras para o combate à Aids foram apresentados por pesquisadores brasileiros nesta sexta-feira. Os compostos foram obtidos a partir de algas marinhas encontradas no litoral brasileiro.O estudo foi realizado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC), da Fiocruz, em parceria com a Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) e a Universidade Federal Fluminense (UFF). Também contou com apoio do Programa Nacional DST/Aids, do Ministério da Saúde.Além do potencial de se tornarem anti-retrovirais 100% brasileiros -o país gasta mais de R$ 1 bilhão por ano com drogas desenvolvidas no exterior-, os medicamentos teriam a vantagem de apresentar baixa toxicidade, segundo os pesquisadores. Em testes in vitro, s substâncias foram capazes de inibir a replicação do HIV-1 em células envolvidas no sistema imunológico. Os resultados foram positivos mesmo em doses baixas, o que pode levar a medicamentos com menos efeitos colaterais que os existentes.Segundo o líder da pesquisa, o imunologista Luiz Roberto Castello Branco, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC e diretor científico da FAP, os testes clínicos (em pacientes) podem começar já em 2010.As substâncias em estudo podem ser utilizadas tanto para medicamentos destinados ao tratamento de pessoas vivendo com o HIV-1 quanto para a prevenção da contaminação, através do desenvolvimento de um microbicida de aplicação local. O microbicida é voltado para uso vaginal, permitindo às mulheres a prevenção mesmo sem o consentimento dos parceiros. Os testes para o uso microbicida das substâncias incluem, além dos testes celulares in vitro e in vivo, a testagem em fragmentos de útero infectados pelo HIV, retirados por biópsia e mantidos vivos em cultura em laboratório. A técnica foi desenvolvida no Saint George's University of London, na Inglaterra e foi transferida para o Laboratório de Imunologia Clínica do IOC. Uma das substâncias investigadas pela iniciativa brasileira já foi testada com sucesso no centro de pesquisa inglês, por uma pesquisadora do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC. O composto está entre os 30 candidatos aceitos pela Aliança para o Desenvolvimento de Microbicidas, organização internacional apoiada pela Fundação Bill & Melinda Gates, e é o único desenvolvido por um grupo latino-americano.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Casos de dengue diminuem em toda São Paulo.


O número de casos de dengue na Cidade São Paulo em 2008 caiu, sem exceção, em todas as Subprefeituras. Algumas delas (Parelheiros e Perus) não registraram sequer um caso da doença. Mesmo com casos notificados, algumas Subprefeituras se destacam quando os números são comparados com os registrados em 2007.

A Penha, por exemplo, teve 210 casos da doença no ano passado, mas neste ano, até o momento, são apenas dois. A líder em registro de casos de dengue em 2007, a Subprefeitura Campo Limpo, teve apenas 13 notificações em 2008. Mesmo a Subprefeitura que neste ano vem apresentando o maior número de notificações, a de São Miguel Paulista, obteve uma redução de 31% em relação ao ano que passou (caindo de 45 para 31 casos).

O resultado positivo identificado em todas as 31 Subprefeituras da Cidade demonstra como foram acertadas as medidas adotadas pela Secretaria Municipal da Saúde no combate ao vetor da doença, o mosquito Aedes aegypti. Entre elas, a integração dos 5,7 mil agentes comunitários de saúde, do Programa Saúde da Família, ao trabalho diário de combate junto à população, complementando o trabalho realizado pelos 2,5 mil agentes de zoonoses.

Outra providência que favoreceu a redução das notificações de dengue foi o trabalho realizado em conjunto com as próprias Subprefeituras. As chamadas Operações Cata-Bagulho retiraram, entre janeiro e abril de 2008, 6,5 mil toneladas de entulho das ruas paulistanas, após 221 ações desse tipo.

Além da parceria com outras Secretarias, o Programa Municipal de Vigilância e Controle da Dengue estabeleceu acordos com diversas entidades da sociedade civil organizada, disponibilizando-se para realizar palestras e treinamentos, distribuindo material informativo e realizando ações conjuntas.

"O envolvimento da população é fundamental para o sucesso no controle da doença", avalia a coordenadora do Programa, Bronislawa de Castro. "Neste ano, podemos dizer que instituições, sindicatos e a população como um todo estiveram atentos aos hábitos de prevenção, não só em suas casas, mas também nas de seus vizinhos".

O último relatório epidemiológico mostra que, em toda a Cidade, ocorreram 187 casos de dengue até o dia 18 de junho. O número é 14 vezes menor que o registrado no mesmo período do ano de 2007, quando foram contabilizados 2.595 casos.

Contudo, as ações de prevenção para o segundo semestre e o verão de 2009 já começaram. Diariamente, os agentes estão nas ruas e as parcerias são ampliadas. Tudo para garantir que o número de casos de dengue seja cada vez menor em São Paulo.

fonte: PMSP

domingo, 1 de junho de 2008

A dor e os laboratórios.

Quem assiste o seriado da Universa Channel irá me entender um pouco melhor, agora. Acabei de sair de um simpósio (um mini-congresso) que abordou a terapia da dor, sob vários pontos de vista e fiquei observando como os médicos são sujeitos interessantes.

Tivemos uma mordomia bastante interessante e agradável, instalados em um resort cinco estrelas, próximos a Salvador, em Camaçari. Prefiro não dizer o nome do lugar, mas, se você quiser, com os recursos da internet, não será nada difícil.

Recebemos o transporte, as refeições, tivemos uma bela piscina à disposição (pelo menos por algumas horas), acesso à internet (estou escrevendo do lobby do hotel) e o convívio agradável com colegas de profissão de vários lugares do país.

A abordagem sobre a dor foi realmente respeitosa, não há o que dizer de diferente. Não fomos acuados de maneira a afrontar a nossa mínima inteligência, no que diz respeito às eventuais indicações de determinado medicamento para o alívio das dores crônicas. Recebemos, de médicos bastante conceituados diante da comunidade científica, informações bastante atuais sobre a dor, suas várias facetas, as várias maneiras de se tratar, sempre de modo técnico, adequado, sem indução, o que é admirável e elogiável.

Gostaria de deixar os parabéns ao laboratório que nos acolheu de modo tão respeitoso e cuidadoso.

Digo isso, pois há poucos dias atrás, fui a um pequeno evento ao qual fui convidado por outro laboratório, que nos ofereceu um jantar num dos melhores restaurantes de São Paulo, jantar do qual não pude desfrutar, pois foi iniciado cerca de duas horas depois do início da apresentação.

Durante a "descrição" e o relato de alguns colegas a respeito de determinado medicamento para combater o tabagismo (e novamente você pode pesquisar na internet...) eu tive a impressão de que queriam me submeter a uma técnica de convencimento que julguei infantil e desnecessária.

Era para que todos dessem seu depoimento e contasse suas experiências sobre o uso do tal medicamento. Bem, para que você entenda melhor, o medicamento tem custo bastante elevado (embora o laboratório tente nos convencer do contrário) e sua eficácia "parece" ser adequada (nào sei se é elevada), mas as descrições de três colegas eram de absoluta adequação e efetividade do dito cujo.

Eu me abstive de comentários, quando o microfone passou pelas minhas mãos, mas em dado momento, quando senti que os "depoimentos" começaram a tomar o caminho de Alice (no país das maravilhas), comecei a falar e dar depoimento oposto a todos os demais.

Aliás, instantes antes de um colega meu falar, eu lhe perguntei se ele seria capaz de depor a favor de algo que ele não cresse. Ele me disse que não. Mas parece que se equivocou. Disse algumas coisas em defesa do medicamento que, certamente, não refletem sua real posição e, se refletem, trata-se de algum equívoco.

Falei pouco, pois, logo em seguida a Gerente de Vendas do tal laboratório, tomou o microfone e encerrou a conversa para iniciar o jantar, pois "já era tarde". Eu não pude ficar, pois tinha compromisso. Mas não ficaria. O ambiente ficou desfavorável, embora todos os propagandistas me dissessem o conrário (aliás, me procuravam para dizer isso, o que é bastante sintomático).

Foi desqradável. Mas foi mais uma experiência que valeu a pena, pois sempre podemos aprender um pouco mais, seja como for.

Ainda bem que há outras propostas, técnicas,respeitosas, éticas, de nos mostrar que é possível exercer a profissão de modo correto, sem que venhamos a cair na corrupção, da qual eu me distancio o máximo possível.

A gente pode conversar mais sobre isso em outra postagem...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Febre amarela


ADIB D. JATENE

A corrida pela vacina por pessoas que não precisam dela reduz a disponibilidade para os que efetivamente têm necessidade.

NO PERÍODO em que estive à frente do Ministério da Saúde, tomei conhecimento da importância da relação entre dengue e febre amarela silvestre e o eventual risco da reurbanização desta última.
Desde 1942, não ocorreu nenhum caso de febre amarela urbana. Entretanto, persiste, e é impossível eliminar, sua forma silvestre.
É por essa razão que o Ministério da Saúde vem vacinando sistematicamente toda a população das áreas de risco, onde há ocorrência de casos humanos, adquiridos sempre nas áreas de mata. Já vacinamos, nos últimos 12 anos, mais de 60 milhões de pessoas.
Nas matas, existe alta concentração de mosquito transmissor e animais, principalmente macacos, portadores do vírus. Daí o risco de pessoas não vacinadas incursionarem em regiões com alta concentração de mosquito, onde alguns estão contaminados e, por isso, são capazes de transmitir a doença. Assinale-se que, nos últimos 12 anos, tivemos 349 casos confirmados, com 161 óbitos, todos adquiridos por pessoas não vacinadas que freqüentaram áreas de mata.
A incidência desses casos variou de ano a ano. Tivemos anos com apenas três casos, enquanto em outros, como 1999, 2000 e 2003, ocorreram, respectivamente, 76, 85 e 64 casos, com mortes de 29, 40 e 23 pacientes.
Por que com essas três centenas e meia de casos, em doze anos, não tivemos transmissão urbana, já que, nas cidades, existe o Aedes aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela?

As razões são três: em primeiro lugar, o número de doentes com febre amarela silvestre no mesmo espaço urbano e ao mesmo tempo é muito pequeno, o que reduz significativamente a chance de infectar o mosquito Aedes aegypti; em segundo lugar, é preciso alta concentração de mosquito, ao redor de 40% de infestação, o que corresponde a 40 habitações em cada 100 com a presença do mosquito, segundo a OMS, para que seja possível a transmissão da febre amarela; e em terceiro lugar, porque temos altos índices de cobertura vacinal na área endêmica, portanto, sem susceptíveis em número suficiente para sustentar uma transmissão.
A concentração do Aedes aegypti nas cidades brasileiras onde ocorre a dengue não ultrapassa, em média, 5 domicílios infestados em cada 100, suficiente para transmitir a dengue devido ao número alto de doentes, mas absolutamente insuficiente para transmitir a febre amarela urbana.
Os que retornam às cidades afetados pela febre amarela silvestre são hospitalizados e têm desenlace, seja para cura, seja para óbito, em prazo relativamente curto.
Não há, portanto, nenhuma razão para vacinar as pessoas que não residem em área endêmica nem pretendem adentrar a mata dessas áreas.
Vi na televisão pessoas que sempre residiram na cidade de São Paulo e que não pretendem viajar desesperadas, em filas para se vacinarem, alegando que tinham direito. Certamente não tinham necessidade e se expõem aos efeitos adversos de uma vacina com vírus vivo.
Nos últimos quatro anos, foram registrados pelo sistema de informação de efeitos adversos pós-vacinação 478 casos (muito mais que os 349 casos de febre amarela registrados em 12 anos), desde reações simples até exantemas generalizados, febre alta e, em dois casos, meningite.
Em relação à vacina contra a febre amarela, a Fiocruz é, praticamente, a única produtora em todo o mundo.
Há só um outro laboratório privado no exterior, produzindo cerca de 5 milhões de doses por ano, enquanto a produção da Fiocruz é o dobro.
A corrida pela vacina por pessoas que não precisam dela reduz sua disponibilidade para os que efetivamente têm necessidade.
Diante da imunização da quase totalidade da população de áreas de risco, o que vem sendo feita há décadas, as recomendações do Ministério da Saúde são suficientes, ratificadas por especialistas e pela própria OMS, para garantir que o país não corre risco de reintrodução de febre amarela urbana, o que seria catastrófico.
Em um país em que freqüentemente se busca desmoralizar iniciativas governamentais, disseminando desconfiança na palavra oficial, que se preserve a seriedade com que são tratados assuntos como a febre amarela.
Nunca é demais ressaltar a luta por recursos para o setor, seriamente afetada pela decisão -inegavelmente democrática, mas, sem dúvida, perversa- que permitiu retirar R$ 40 bilhões destinados a atender a população de baixa renda e entregá-los a empresas e parcelas da população mais bem aquinhoadas, causando sério risco ao esquema financeiro para o setor.

publicado na Folha de S. Paulo, em 22/01/2008

ADIB D. JATENE, 78, cardiologista, é professor emérito da Faculdade de Medicina da USP e diretor-geral do Hospital do Coração. Foi ministro da Saúde (governos Collor e FHC), secretário da Saúde do Estado de São Paulo (governo Maluf) e diretor do InCor

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

CPMF: vai ou fica?

A idéia de um imposto que permitisse “salvar” a Saúde (com letra maiúscula, por favor!) do Brasil veio de um grupo de pessoas certamente interessadas em ver um gigantesco País curado de chagas centenárias com relação à Saúde Pública.
Basta ler a História da Saúde brasileira para aprender que a preocupação dos Governos para com ela nunca foi, digamos, um primor.
Leiam um pequeno trecho do relato da Biblioteca Virtual em Saúde – História da Medicina e Saúde:

“No alvorecer do século XX, o Rio de Janeiro enfrentava graves problemas sociais, decorrentes, em larga medida, de seu crescimento rápido e desordenado. Com o declínio do trabalho escravo, a cidade passara a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades que ali se abriam ao trabalho assalariado. Entre 1872 e 1890, sua população duplicou, passando de 274 mil para 522 mil habitantes.
O incremento populacional e, particularmente, o aumento da pobreza agravaram a crise habitacional, traço constante da vida urbana no Rio desde meados do século XIX. O epicentro dessa crise era ainda, e cada vez mais, o miolo do Rio – a Cidade Velha e suas adjacências – , onde se multiplicavam as habitações coletivas e onde eclodiam as violentas epidemias de febre amarela, varíola, cólera-morbo que conferiam à cidade fama internacional de porto sujo.
Não por acaso, os higienistas foram os primeiros a formular um discurso articulado sobre as condições de vida na cidade, propondo intervenções mais ou menos drásticas para restaurar o equilíbrio daquele "organismo" doente. O primeiro plano urbanístico para o Rio de Janeiro foi elaborado entre duas epidemias muito violentas (1873 e 1876), mas uma ação concreta nesse sentido levaria cerca de três décadas para se realizar. Foi a estabilidade político-econômica, a duras penas alcançada no governo Campos Sales (1898-1902), que permitiu ao seu sucessor, Rodrigues Alves, promover, entre 1903 e 1906, o ambicioso programa de renovação urbana da capital.
Tratada como questão nacional, a reforma urbana sustentou-se no tripé saneamento – abertura de ruas – embelezamento, tendo por finalidade última atrair capitais estrangeiros para o país. Era preciso sanear a cidade e, para isso, as ruas deveriam ser necessariamente mais largas, criando condições para arejar, ventilar e iluminar melhor os prédios. Ruas mais largas estimulariam igualmente a adoção de um padrão arquitetônico mais digno de uma cidade-capital.”

Além de perceber-se com clareza que a passagem do Século XIX para o XX não foi tão somente romântico como citam as mini-séries da Globo, pode-se notar que uma consciente classe de médicos-higienistas (hoje conhecidos como Sanitaristas) preocupava-se com a reestruturação de toda uma Cidade, em termos realmente sanitários, para resolver as epidemias que surgiam na Capital Federal por conta das migrações e do “desenvolvimento” que o País como um todo recebia grande número de estrangeiros em busca de uma “nova vida” que permitisse gerar maior segurança material. O País é rico e poderá gerar riquezas também (podemos dizer isto ainda nos dias atuais)

Entre os processos de conscientização de um ou outro cientista, um ou outro político e de raros médicos que realmente conseguiram sensibilizar os Governos, pudemos vivenciar no correr de todo o século XX um descaso proporcionalmente ainda maior, se for feito um paralelo com o grau de consciência desta época para como as anteriores, nas quais não existia o conhecimento científico equivalente.
Desde o IAPI, INPS, passando para o INSS e até chegar ao SUS (uma sopa de letrinhas para a Assistência Médica Pública e para o Serviço de Previdência Pública), muitas interferências, muitas reuniões e muito caos com ilhas de qualidade estão, ainda, presentes no Brasil atual.

Na gestão do então Ministro da Saúde, Adib Jatene, a promulgação da cpmf veio prometer que a Saúde Pública seria curada de suas feridas e de sua desestruturação crônica. O imposto, transitório, seria criado para impulsionar este Setor Público para o crescimento e a “libertação” de uma estrutura viciada de dependente da vontade política e de políticos que atravancavam o seu desenvolvimento. Era uma “virada” inteligente e sagaz, que poderia injetar milhões (quem sabe bilhões?) de reais para a reestruturação da falida Saúde Brasileira, curando-a definitivamente em cerca de dez anos!

Era uma proposta de um recurso transitório, pois em cerca de uma década seria possível resolver tudo para dar Saúde de qualidade para TODA A POPULAÇÃO. Questões de estratégia e bom senso!

Mas, o então Ministro da Saúde, acabou saindo (ou, talvez, sido convidado a sair) e deixou uma herança ordinária para uma determinada classe social – a média – que arca com enorme carga tributária para sustentar muitas propostas governamentais e nem sempre (ou quase nada) à Saúde Pública.
Saiu o Ministro, ficou o imposto. Ele era transitório, o imposto parece ter vindo para ficar. Será que a verba arrecadada com este imposto é dirigida para a proposta inicial? Ou terá esta verba tido seu destino modificado, combinando com interesses particularistas e políticos?

Hoje vemos que a cpmf é foco de política e de políticos: sua manutenção é causa de polêmica desnecessária fundamentada em interesses de “aquisição” de votos na população mais carente, que, aliás, pouco ou nada contribui para com esse imposto. Apenas “recebem” os benefícios que ele teria gerado, nada mais. Afinal, como pode alguém, sem conta bancária colaborar com o “imposto do cheque”? Por falar nisso, gostaria de (me) corrigir: “imposto da conta-corrente”! Sim, pois não é somente através do cheque que ele gera contribuições: é também através do cheque!
Pena ver uma idéia tão brilhante se transformar em gangorra política destituída de favorecer A TODOS e não somente a uma camada da população que seja menos favorecida financeira, social, educacional e “sadiamente”. Pena ver o transitório ganhar ares de definitivo, assim como alguns presidentes gostam de perpetuar sua tarefa diante dos povos...