Gravidez e Medicamentos (psicotrópicos)




Diante de um profissional (ou o que é pior, um curioso ou parente ‘bem intencionado’) o qual recomenda enfática e empafiamente que “não se deve consumir nenhum medicamento durante a gravidez e lactação”, experimente perguntar em qual categoria de classificação de riscos se enquadra o medicamento em questão. Pergunte em qual época da gestação “não se deve consumir nenhum medicamento”, pergunte ainda, qual a poprcentagem da substância que atravessa a placenta ou aparece no leite materno, pergunte, enfim, de onde essa pessoa tirou tais informações.

Você vai ver que ninguém, ou poucas dessas pessoas, entende sobre o assunto ou têm alguma autoridade científica sobre ele. Essa negligência por omissão ou por ignorância científica, infelizmente, é bastante observada entre ginecologistas, obstetras e pediatras. É muito mais fácil proibir tudo quando não se conhece nada.

A gravidez é um momento de importante mudança emocional para a mulher, havendo um grande aumento do estresse e da ansiedade. Com freqüência a medicação psicotrópica adequada pode ser indispensável para o tratamento desses transtornos (McGrath, 1999), a despeito de a paciente estar grávida.

O tratamento dos distúrbios psiquiátricos manifestados neste período pode apresentar dilemas difíceis, devendo sempre envolver uma análise cuidadosa dos riscos e dos benefícios do tratamento. Por isso o intercâmbio continuado entre obstetras e psiquiatras deve ser incentivado fortemente, a fim assegurar o melhor resultado possível para a mãe e para o bebê.

Uma avaliação do Serviço de Saúde Pública Francês sobre o uso de medicamentos durante a gravidez em 1.000 mulheres no sudoeste de França, mostrou que durante sua gravidez, 99% das mulheres receberam pelo menos uma prescripção médica. A média foi de 13,6 medicamentos por mulher, sendo que 1,6% receberam uma ou mais prescrições de medicamentos catalogados pela FDA (agência americana para controle de drogas e alimentos)como sendo da categoria X, na qual os riscos para o feto são maiores que os benefícios.

Nessa mesma pesquisa viu-se que 59% das mulheres receberam prescrições de medicamentos catalogados na categoria D (aqueles que têm riscos para o feto, mas os benefícios podem ser aceitáveis e justificar o uso). Finalmente, 79% das mulheres estiveram expostas a medicamentos dos quais não se dispõe informação sobre seu uso seguro durante a gravidez em animais ou em humanos.

Os dados mostraram que as grávidas francesas (acreditamos que, como as grávidas dos demais países) estão freqüentemente expostas a medicamentos dos quais não se conhecem exatamente os efeitos colaterais sobre o feto.

Isso pode significar que o uso indiscriminado desses medicamentos pode estar causando malefícios, mas, igualmente grave, pode significar que a recusa generalizada e preconceituosa em prescrever tratamentos pode ser igualmente ruim ou pior ainda.

“Não se deve consumir nenhum medicamento durante a gravidez e lactação” – Isso é mentira, omissão e comodidade de alguns médicos despreparados. É muito mais fácil proibir tudo quando não se conhece nada. Na realidade é uma informação extremamente demagógica, já que existe uma simpatia cultural pelo natural, principalmente em se tratando de gravidez. Mas como fica o eventual sofrimento da mãe portadora de qualquer transtorno médico simultâneo à gravidez? E se esse transtorno da mãe repercutir diretamente sobre a saúde do feto e, posteriormente, da criança? Como fica a mãe esquizofrênica, que apresenta sérios riscos de ferir ou mesmo matar seu filho?

Como fica a mãe depressiva que pode desenvolver Psicose Puerperal ou Depressão Pós-Parto e igualmente prejudicar irreversivelmente seu filho? Nessas questões os “naturalistas” não se aventuram com a mesma arrogância demagógica com que dizem “não se deve consumir nenhum medicamento durante a gravidez e lactação”. Alguns medicamentos não são indicados durante a gravidez e amamentação, outros são indiferentes e, outros ainda, são extremamente necessários. Hoje em dia convivemos com algumas tiranias culturais. Uma delas e, parece, a mais incômoda para a psiquiatria, tem sido o culto ao "natural". Trata-se de uma postura tão hipócrita quanto atraente. Não fosse hipócrita, todos andaríamos à pé, muito natural, e não de automóveis. Não usaríamos óculos, telefones celulares, televisão, perfume... e assim por diante.

Um dos tipos de "tirania do natural" é a contra-indicação absoluta de medicação em geral e, em particular, de qualquer psicotrópicos para grávidas e mães que amamentam. Acontece que, para grande número de obstetras e clínicos, tem sido muito trabalhosa a tarefa de informar-se e atualizar-se continuadamente a respeito das relações de produtos farmacêuticos e gravidez (ou lactação). Então é muito mais fácil contra-indicar tudo. Essa postura é facilitada pelo discurso agradável e politicamente correto de apelar ao "natural", ao "fora drogas!" e assim por diante.

Mas, o que esses profissionais pouco esclarecidos e muito opinantes não sabem e não querem saber, é sobre os efeitos extremamente danosos que os transtornos emocionais proporcionam para a qualidade de vida da gestante, do cônjuge, da família e/ou do bebê depois do parto.

Apesar da alta freqüência da depressão em mulheres grávidas, as informações das pessoas, pacientes e, infelizmente, dos médicos generalistas e obstetras sobre o tratamento psiquiátrico durante a gravidez são muito limitadas (Wisner, 1999).

Atualmente já dispomos de significativos dados de pesquisa para o uso de antidepressivos tricíclicos (ADT) e de alguns inibidores seletivos de recaptação da serotonina mais novos (ISRS) - mais freqüentemente para a fluoxetina – em pacientes grávidas e amamentando. A maioria dos autores tem concluído que a exposição a estes agentes não aumenta o risco para a morte intra-uterina ou para defeitos congênitos ao nascimento. Medicamentos usuais que devem ser evitados.

A natureza foi, como sempre, extremamente sábia em relação à chamada Fase Embrionária da gravidez, que corresponde aos 20 primeiros dias da concepção. Os medicamentos administrados nessa fase podem causar apenas 2 efeitos; ou matam o feto ou não o afetam em absoluto.

Isso pode aliviar as gestantes que estão em uso de algum medicamento mas não sabem ainda que estão grávidas. Há tempo suficiente para interromper o uso de algum medicamento, reconhecidamente danoso à gestação, sem que tenha havido tempo para causar malformações.

Depois dessa fase embrionária vem a Fase da Organogênese, que vai da 3ª à 8ª semana. Esse sim é um período crítico em relação às possibilidades de malformações. Os medicamentos administrados depois da Fase da Organogênese, ou seja, durante ol 2º e o 3º trimestres, pouco provavelmente produzirão malformações, ainda que alguns possam alterar o crescimento normal de órgãos fetais.

De modo geral, pelo que se sabe atualmente, os medicamentos (ou fármacos) que devemos evitar na gravidez, especialmente durante o chamado período da organogênesis (entre a 3ª e a 8ª semana de gestação), sob o risco de produzir malformações graves ou outros problemas de crescimento e desenvolvimentos fetais.

Medicamentos quimioterápicos (para o câncer)
Talidomida (para enjoo)
Isotretinoína e etretinato (contra a acne).
Hormônios: androgênios e tiroideanos.
Medicamentos antitiroideanos.
Anticonvulsivantes (alguns).
Vacinas com vírus vivos (por exemplo para rubéola)
Antidiabéticos orais
Alguns analgésicos.
Alguns antibióticos (tetraciclinas, estreptomicina, gentamicina, cloramfenicol, sulfas). As penicilinas parecem ser seguras.
Anticoagulantes orais. A heparina, por sua vez, não atravessa a placenta e é o anticoagulante de escolha durante a gravidez.

Os medicamentos e substâncias foram, de modo geral, classificados pela FDA (Federal Drugs and Foods Administration) em 5 categorias (A, B, C, D e X), crescentemente, de acordo com o grau de riscos à gestação, tomando por base, predominantemente, o primeiro trimestre da gestação. São elas:

Categoria A – A categoria A se refere à medicamentos e substâncias para as quais os estudos controlados em mulheres não têm mostrado risco para o feto durante o primeiro trimestre e a possibilidade de dano fetal é bastante remota.

Categoria B – Na categoria B, os estudos realizados em animais não indicam que a substância oferece riscos para o feto, mas não há estudos controlados em humanos que mostrem efeitos adversos sobre o feto. Também se aplica aos medicamentos nos quais os estudos em animais mostraram efeitos adversos sobre o feto, mas os estudos controlados em humanos não demostraram riscos para o feto. Podemos considerar os medicamentos e substâncias incluídos nessas duas categoria de prescrição com Cautela.

Categoria C - Os estudos em animais têm demonstrado que esses medicamentos podem exercer efeitos teratogênicos ou é tóxico para os embriões, mas não há estudos controlados em mulheres ou não há estudos controlados disponíveis em animais nem em humanos.

Podemos considerar os medicamentos e substâncias incluídos nessas duas categoria de prescrição com Risco.

Categoria D – Na categoria D já existe evidência de risco para os fetos humanos, mas os benefícios em certas situações, como por exemplo, nas doençass graves ou que põem em risco a vida e para as quais não existe outra alternativa terapêtica, podem fazer com que o uso durante a gravidez esteja justificado, apesar dos riscos. Podemos considerar os medicamentos e substâncias incluídos nessas duas categoria de prescrição como sendo de Alto Risco.

Categoria X – Finalmente vem essa categoria X, onde os estudos em animais ou humanos têm demonstrado que o medicamento causa alterações fetais ou há evidência de aumento no risco para o feto com base na experiência em humanos ou ambos. O risco supera claramente qualquer possível benefício. Podemos considerar os medicamentos e substâncias incluídos nessas duas categoria de prescrição como sendo de Perigo. Assim sendo, diante de um profissional (ou o que é pior, um curioso ou parente ‘bem intencionado’) o qual recomenda enfática e empafiamente que “não se deve consumir nenhum medicamento durante a gravidez e lactação”, experimente perguntar em qual categoria se enquadra o medicamento em questão. Verá que ninguém, ou poucas dessas pessoas, entende sobre o assunto ou têm alguma autoridade científica sobre ele. Essa negligência por omissão ou por ignorância científica, infelizmente, é bastante observada entre ginecologistas, obstetras e pediatras.

É isso... tem muito mais, mas eu acho que você já nem está mais lendo direito de tão longo que é o texto...
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