Alexithymia


Alexithymia é uma palavra com raízes gregas: a partícula a tem um sentido de negação, de “falta ou ausência”; lex, significa “palavra”; e thymos é “emoção ou sentimento”. Literalmente, alexitimia pode ser traduzida como sem palavras para sentimento.
Na década de 60, os psiquiatras John Nemiah e Peter Sifneos perceberam que alguns pacientes psicossomáticos mostravam grande dificuldade para falar sobre suas emoções e sentimentos, dando a impressão de não compreenderem o significado dessas palavras. Sifneos (1972) criou então a palavra alexitimia para explicar esse comportamento
Esta é uma perturbação que afeta o processamento emocional, da qual resulta a incapacidade de exprimir as emoções, sob a forma de sentimentos, por intermédio da linguagem.

Suas características mais salientes são:

(a) dificuldade em identificar e descrever sentimentos;
(b) dificuldade em distinguir os sentimentos de sensações corporais decorrentes da atividade emocional;
(c) processos imaginativos limitados e
(d) estilo cognitivo utilitário, baseado no concreto e orientado para o exterior, também conhecido como pensamento operacional.

Estas duas ultimas características são consideradas elementos básicos que evidenciam a pobreza ou a ausência de fantasias e a preocupação com detalhes pontuais de acontecimentos externos.

Esses comportamentos vêm sendo descritos na literatura especializada já há algum tempo. Em 1948, Jürgen Ruesch citou pacientes sem imaginação, que usavam ações e canais corporais para expressar suas emoções, eram falhos na comunicação afetiva e mostravam excessivo nível de conformidade social. Paul MacLean (1949) escreveu: “deve ser considerado que uma das notáveis observações sobre o paciente psicossomático é sua aparente inabilidade intelectual para verbalizar seus sentimentos”. Os alexitímicos são descritos como “robôs humanos”, portadores de uma espécie de analfabetismo emocional.

Sua incidência é estimada em 10% na população em geral (Aleman, 2005). Contudo, no Brasil a alexitimia ainda é relativamente desconhecida, mas no mundo ocidental ela vem sendo constantemente estudada, existindo diversos instrumentos de medição já traduzidos e adaptados para vários países com o intuito de facilitar seu diagnóstico.

Embora a alexitimia seja um construto clínico já testado, ela não constitui uma doença diagnosticada, mas sim um aspecto clínico associado a algum outro problema médico, tal como Desordem de Stress Pós Traumático, Anorexia Nervosa ou outra desordem psiquiátrico. Estudos realizados com indivíduos portadores de anorexia nervosa têm encontrado uma elevada prevalência de alexitimia nos trabalhos publicados, com resultados superiores a 50% dessa comorbidade. Tais valores são considerados elevados quando consideramos a prevalência da alexitimia na população geral varia de 10 a 20%, ou menos. Alguns estudos atuais mostram evidências que possibilitam considerar a alexitimia como uma condição independente pelo seu caráter de disfunção afetivo-cognitiva, duplamente associada a alguma condição física-patológica e por danos à vida relacional do indivíduo.

Ainda não há consenso sobre a etiologia da alexitimia. Existem teorias que a associam a algum trauma cerebral, a defeitos na formação neurológica, a influências socioculturais e outras que acreditam numa origem psicológica, como por exemplo, traumas na formação infanto-juvenil, ou mesmo mais tarde.
Contudo, as teorias e pesquisas mais atuais sobre alexitimia, lançam uma proposta segundo a qual nos alexítimicos existiria um rompimento na comunicação entre os dois hemisférios cerebrais: ou seja, uma “comissurotomia funcional”, refletindo uma limitada capacidade de coordenar e integrar atividades inter-hemisféricas.

Mesmo que alguma causa orgânica possa contribuir para a alexitimia, a perspectiva da maioria dos autores dessa área é a de que esse transtorno seja desenvolvido; isto é, ele surge a partir e durante as interações da pessoa com o ambiente, principalmente no seu período de formação. Segundo essa proposta, o alexitímico não tem um problema anatômico ou de arquitetura cerebral, mas sim uma disfunção cerebral aprendida, como acontece, por exemplo, com outras desordens afetivas. Ao nascimento nosso cérebro não está desenvolvido por igual, sendo necessários muitos anos de desenvolvimento pós-natal até que o indivíduo se forme psiquicamente. Esses anos exigem a participação de outras pessoas para a formação do futuro adulto, as quais ajudam a criança a aprender a identificar e regular suas emoções. Isso é primariamente executado pela mãe ou por quem que desempenhe esse papel, sendo necessário estar “sintonizado” com as necessidades da criança. Percebe-se, então, que a maturação cerebral e a formação individual relacionam-se a processos orgânicos e biopsicossociais podendo ser alteradas caso haja desarranjos em algum deles.

As emoções necessitam de uma sequência para se tornarem processos de sentimentos e esta sequência não ocorre no alexitímico. Não é possível afirmar que ele não tenha emoções, mas sim que não é viável realizar a passagem emoção – sentimento. Nele, o circuito neural que permite a autoconsciência emocional (percepção consciente das sensações subjetivas que acompanham as emoções) não é completado de forma satisfatória, resultando num circuito que não permite a regulação (experienciação e expressão) emocional adequada. Essa deficiência impede a geração do sentimento consciente e de um processo cognitivo-experiencial. Não havendo geração de sentimento, não há também a possibilidade de seu cultivo. Instala-se então o círculo vicioso que pode trazer prejuízos psíquicos a esses pacientes e levá-los a procurar ajuda.
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