Esquizofrenia: recordando...





A esquizofrenia é um transtorno mental grave que afeta praticamente todos os processos mentais (afetividade, percepção, pensamento, motivação, memória, etc.) e que se caracteriza em geral pela presença de ambivalência emocional, alucinações (de qualquer dos cinco sentidos, mas predominante-mente auditivas e visuais), alterações da forma e do conteúdo do pensamento (sobretudo delírios) e alterações do contato com a realidade. Juntamente com a paranoia e a antiga psicose maníaco-depressiva, as esquizofrenias compõem o grupo das enfermidades metais comumente chamadas "psicoses".

A causa da esquizofrenia não é inteiramente conhecida e parece mesmo não haver um fator causal único, mas multifatores levando a esta condição. A doença parece ser devida ao quadro psicológico (consciente e inconsciente); ao ambiente e ao histórico hereditário familiar para a própria doença e para outros transtornos mentais aparentados. Mais recentemente, tem-se postulado que o uso de substâncias psicoativas pode estar envolvido no desencadeamento de surtos esquizofrênicos que sejam latentes. As teorias genéticas postulam uma participação hereditária; as neurobiológicas defendem que a esquizofrenia é causada por alterações estruturais ou químicas do cérebro; a teoria psicanalítica defende a importância de fatores psicológicos precoces e as teorias familiares alegam a importância de estruturas e formas de comunicação anômalas. Mais recentemente a teoria dos neurotransmissores, segundo a qual a doença estaria ligada à alteração de certos neurotransmissores cerebrais, vem ganhando terreno.

Geralmente a esquizofrenia começa na adolescência ou no adulto jovem, embora possa também começar antes ou depois disso. Tanto pode iniciar-se de forma aguda e exuberante como de maneira insidiosa e larvar. Às vezes a doença se manifesta agudamente, quase que da noite para o dia, por assim dizer; outras vezes as pessoas próximas ao enfermo só se dão plena conta da anormalidade depois de meses de iniciada a doença. Como as mudanças acontecem paulatinamente, é possível que as pessoas que tenham contatos mais esparsos com o paciente as notem mais rapidamente.

De início pode ocorrer uma tensão imotivada, insônia, queda dos rendimentos no estudo ou no trabalho (que às vezes acabam sendo interrompidos), prejuízo da atenção e da concentração. Aos poucos o paciente vai perdendo o interesse pelas coisas que antes gostava, torna-se mais "ensimesmado", alega estar ouvindo vozes ou tendo visões que não correspondem à realidade e passa a ter pensamentos e vivências estranhos. Começa a mostrar desleixo com a sua aparência e descaso com sua higiene pessoal.

A fase inicial pode passar despercebida pelos familiares ou ser negada e encobertada por falsas explicações. A doença só fica clara quando o paciente começa a ter alucinações ou delírios.

A esquizofrenia ocorre em cerca de 1% da população, a maioria dos casos se inicia entre os 15 e os 25 anos. A incidência dela é igual nos homens e nas mulheres, bem como nas diversas culturas e classes sociais.

Há uma evidente participação genética, mas o fator genético não parece ser a causa única. Em mais de 80% dos pacientes não se conhece um familiar que tenha tido a doença.

No caso de um dos pais ser esquizofrênico, a probabilidade do filho vir a ter a doença é de 12% e ela aumenta para 40% no caso de ambos os pais sofrerem desta condição.

Os sintomas da esquizofrenia são extremamente variados, mormente porque existem diferentes formas da doença, como veremos.

Classicamente, Bleuler descreveu três sinais fundamentais: autismo, ambivalência afetiva, desagregação do curso do pensamento.

Num sentido clínico mais imediato tem-se indiferença afetiva em relação à realidade (isolamento); falsas percepções (alucinações), principalmente auditivas e visuais, e alterações na forma e conteúdo do pensamento (desagregações e delírios).

Os sintomas da esquizofrenia podem ser divididos em positivos e negativos.

Os sintomas positivos em geral acontecem na fase aguda da doença e são como que “acrescentados” às funções psíquicas normais e as distorcem, como as alucinações e os delírios, a desorganização do pensamento, a invenção de palavras, a impulsividade, a ansiedade e a agressividade.

Os sintomas negativos são de cunho deficitário, no nível das emoções, da motivação, do pensamento e das relações interpessoais, tais como a abulia (incapacidade relativa ou temporária de tomar decisões), a apatia, o isolamento social, a indiferença emocional, etc.

Os sintomas positivos ou negativos não ocorrem igualmente em todos os esquizofrênicos. Em cada paciente há a predominância de uns ou de outros. Também o tempo de evolução da enfermidade tem importância: os sintomas negativos tendem a predominar na esquizofrenia tardia.

As formas da esquizofrenia são estabelecidas clinicamente, com base nos sintomas.

Fala-se atualmente em cinco formas de esquizofrenia1: paranóide, desorganizada, catatônica, indiferenciada e residual.

Na esquizofrenia paranóide que, em geral, tem forma de início aguda, predominam os sintomas positivos, principalmente o delírio paranóide (de perseguição ou grandeza), relativamente bem estruturado, e as alucinações.

Na forma desorganizada há principalmente transtornos afetivos e do curso do pensamento. As idéias delirantes são mal estruturadas ou não têm nenhuma organização. Nas formas catatônicas predominam as alterações da motricidade, da vontade e da atividade. A forma indiferenciada, de início insidioso, é marcada por apatia e indiferença em relação a mundo externo, com diminuição dos rendimentos nos estudos e no trabalho.

A forma residual representa a etapa final da evolução da esquizofrenia. Nela há um predomínio de sintomas negativos, um embotamento afetivo e uma pobreza de produção mental.

O tratamento da esquizofrenia é multidisciplinar e envolve, além da medicação, a psicoterapia, a terapia ocupacional, a intervenção familiar, a musicoterapia e a psicoeducação. Embora não visem a cura, esses procedimentos ajudam muito a controlar os sintomas.

O tratamento farmacológico merece menção à parte. Os antipsicóticos são efetivos no controle dos sintomas, em cerca de 70% dos casos. Eles agem sobre os neurotransmissores cerebrais como a dopamina, serotonina e adrenalina.

A esquizofrenia é uma doença incurável, embora as diversas formas de tratamento proporcionem um controle muito efetivo dos sintomas. A personalidade do paciente fica alterada após cada surto da doença ou se altera gradativamente nos casos de curso insidioso.

Depois de alguns anos de doença e com o avançar da idade do paciente, a esquizofrenia se estabiliza, tendendo a não ocorrerem novos surtos ou a não mais evoluir. No entanto, a personalidade do paciente já estará gravemente alterada, no sentido de um significativo alheamento social, uma marcante falta de afetividade e uma grande deficiência de produtividade. Em geral, esses pacientes não têm condições de manter o estudo, uma família ou um emprego. No máximo conseguem desempenhar atividades muito simples e rotineiras que não requeiram criatividade.
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